Hoje o dia era supostamente, para ser meu. Todo meu do princípio ao fim. Mas não. Apesar de ter começado bem cedo. Nada foi como esperava. A manhã passada na entrega de umas lembranças a uns amigos da família que pela contingência da época amanhã já partiram para a "terra", umas compras cá para casa e a escolha da prenda para a afilhada, mais fofa e linda; que para quem não sabe é a minha.
A manhã estava solarenga, com aquele frio, bem portuense que deixa o casaco húmido e gelado. No ar o cheiro a Natal, o das lareiras acesas. As vozes das pessoas na rua. O "BOM NATAL!" berrado de um lado para o outro da rua. O senhor Ilídio alinhou as romãs, como sempre e cheira a canela, mal se entra na entrada.
Mas depois a tarde. Soube muito pouco a Natal, a prendas e a memórias boas. Soube a vazio. Esvaziei a casa da minha infância. Se calhar de todas as minhas casas, aquela que apesar de velhinha, cheirava a ninho e a paz. Esvaziei o "meu sótão". Limpei as gavetas da minha infância e adolescência. Deitei fora as mantas que agasalharam as minhas gripes e as cadeiras que me fizeram companhia nos dois longos meses que não mexi a perna.
Eu fiz aquilo na boa. Levei tudo na brincadeira. Mas... e agora?! Não tenho mais um cabide com o meu nome mal entro na porta. Já não consigo sentir o cheiro da avó no fogão a lenha, nem o barulho da cafeteira a ferver ao lume. Eu trago comigo, para lá de imensas coisas, que guardo e guardarei religiosamente. Os sonhos que sonhei lá. Eu sonhei que iria para a faculdade, e iria ser estudante e deixar todos altamente orgulhosos. E esse já está. Sonhei ser professora e esse já sou mais ou menos. Sonhei ter castelos e sonhos. E agora tenho meu sonho e novos castelos.
Eu estava bem.
Eu estou bem.
Ainda não foi hoje que me despedi definitivamente. A casa vazia, partiu-me o coração, logo hoje na véspera de todas as minhas melhores recordações daquele lugar.
Estou atónita, por uns momentos mas isto vai passar... tem de passar!
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