quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Se eu perdesse tudo?!

"E se perdesses tudo?!"

Esta foi a pergunta de hoje. Quando a C. me fez esta pergunta, certamente, estava longe de lhe passar pela cabeça que me iria pôr a escrever. a escrever de imediao, enquanto ela está para ali a (tentar) resolver umas equações, eu estou já presa a uma folha de papel. [Sim, primeiro as minhas palavras conhessem a luz do branco do papel e só depois, a luz do ecrã!]
Para a C. no topo dos seus recentes 14 anos, caso a sua casa fosse devastada pelo fogo o que lhe faria imensa falta, imensa, mesmo daquela básica para sobreviver, era o computador e todo o seu quarto. Que é todo o seu mundo! Aos 14 anos o nosso mundo é mesmo uma coisa umbilical, algo fundamental, tal como o ar que respiramos! Perguntou à I. o que achava disso.
"Se perdesses tudo num incêndio. E te dessem a oportunidade de salvar uma coisa, o que seria?!"
A I. com a maturidade tão conhecida dos 16 anos, afirma solenemente que sem o seu tablet, não saberia viver. É inconcebível pensar a sua vida sem ele e a Internet!

Pois bem. "E tu, Sara?!"


"Qual seria a única coisa que salvarias?!"

Parei. Aliás, tinha parado momentos atrás, quando tinha perguntado pela primeira vez!
O que salvaria... O que salvaria...
Longe dos anos da adolescência, não seria o quarto (meu refúgio de outras guerras), não seriam os equipamentos tecnológicos (que são cada vez mais de trabalho e cada vez menos de lazer)... Nem aquela mala gira que me ofereceram no Natal! Eu tentaria salvar...
Salvar a minha história. A minha vida.
Salvaria os meus baús. Salvaria a Sara pequenina, sentada num carrinho de bonecas com o jornal na mão. Guardaria a Sara que aprendeu a escrever e que trocava o p pelo t, naquele caderninho da 2ª classe. Guardava a Sara cheia de medos e angústias que não se sabia adolescente. Guardava a Sara universitária de t-shirt do caloiro envergada qual traje mais importante invergado cheio de orgulho. Guardava a Sara de mão dada com o "Bô", sempre de mão dada, para não perder o seu chapéu, o cavalinho sentada na sua perna. Para não perder a minha avó emprestada, por entre os tachos e panelas da sua cozinha. Para (re)ver a minha avó de pé a correr pela casa com o seu ar esbaforido e vivo. Para me ver nos olhos a brilhar do meu pai. Para ver como amei a minha irmã, desde o momento em que nasceu. Para ver a minha vida... Para ter a possibilidade de ver os meus quando eu já não os vir com os olhos. Para os poder sentir, mesmo que a memória, um dia os esqueça... para saber quem sou, de onde vim e para onde quero ir.

Eu salvaria o baú das recordações... Eu trazia as pessoas que lá moram comigo e para sempre.

Esta não era a resposta que a C. estava à espera. E deixou-o bem claro na sua resposta "És tão esquisita, Sara!"

Talvez, de facto já tenha sido adolescente há demasiado tempo atrás, e nem tivesse consciência disso!

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