Acabei de chegar do hospital. Mais uma consulta de Imonoalergologia e nada... de novo não se descobre o que me causam as dermatites agudas. Seguem-se novas rondas de testes em Novembro.
Mas não foi isso que me causou surpresa. Até já estava à espera.
O espaço é partilhado por uma série de serviços. Sendo que a maioria dos doentes que lá se encontram de manhã são os doentes do Hospital de Dia e os de Oncologia para tratamentos e as cadeiras na sala de espera são poucas, eu raramente aguardo sentada que a médica me chame.
Hoje enquanto esperava vi que havia um lugar vazio entre um casal. Casal mesmo. Marido e mulher.
E eles insistiam para me que sentasse.
A senhora tinha um ar cansado, do topo dos seus 50 anos, era uma velha cansada. Velha do trabalho. Do desgaste de mais de 40 horas por semana presa numa fabrica a fazer movimentos repetitivos, ou numa máquina de costura. Que lhe prenderam mais do que o corpo a alma e os sonhos.
Ele estava em tratamento. Cabeça rapada. Visivelmente debilitado. Com uma cor no rosto onde não há réstia de saúde que ali more. Com os braços perdidos entre as pernas. sem força para os aguentar de costas e cabeça erguida. Os olhos esses, pareciam um mar imenso de água, mas uma água triste a amargurada.
Conversei com eles. Sorri-lhes. E fiquei também eu de olhos rasos de água.
Ouvi-a falar de mau feitio dele. Do ter dores e não se queixar. de já não querer lutar. Do ela senti-lo cada vez mais frágil e ele continuar a recusar ajuda. Senti que o maior medo desta senhora é perder o amor da vida dela. O homem da vida dela...
Enquanto ela se ausentou para falar com um dos médicos dele. Ele lá me disse que estava cansado, que se sentia tonto. Mas só tinha tirado um "frasquito" de sangue que não era de especial e não percebia o que se passava. No fundo ele já não se reconhece. Ele trabalha na construção civil. Trabalha, não trabalhava, porque esteve de baixa demasiado tempo, e entretanto a empresa faliu. Ele está fraco. Vai a mais uma junta médica e está preocupado.
Eu nunca sei o que dizer nestas situações. Evito-as a todo o custo. Mas hoje percebi que há tanto a ganhar com isto. Eu não lido muito bem com a fragilidade da doença. Mas adorei conversar com estes senhores, são pais extremosos, que têm problemas, que o dinheiro não estica e que há muitas despesas... Que a vida de trabalho dura e poucas vezes recompensada, está marcada no corpo, nos traços do rosto e nas pontas dos dedos. mas que mesmo assim, quando estão na mó de baixo, ainda assim, quando se está frágil há uma ponta de esperança que resiste e persiste e ainda bem.
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